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Altas taxas de cesariana: como quebrar o paradigma? - Dr. Jorge Telles


 
Há alguns anos o Brasil escolheu o Panejamento Familiar como meio de reduzir a crescente natalidade no país e o fantasma da superpopulação. A outra alternativa era o Controle de Natalidade, utilizado comumente em países totalitários, que limita o número de filhos por família, punindo os transgressores. Já percebemos o resultado. A educação e cultura de nossa população, apesar de ainda insatisfatória, levou a redução da natalidade, sem medidas radicais.

O governo federal anunciou medidas para a redução da taxa de cesariana na Saúde Complementar no Brasil, que alcança 84% nos partos dos chamados “convênios”. Analisando o foco das ações, transparece que os culpados das exorbitantes taxas foram encontrados: hospitais e médicos. Monitorando-os e punindo-os chegaremos aos 15% de cesariana que recomenda a OMS ou pelo menos aos 30-40% que temos no SUS e que engloba gestantes, fetos e partos de alto risco. Será mesmo tão simplória esta solução? Será este o melhor caminho, num país democrático?

Três aspectos devem ser examinados nesta questão. O primeiro é a insustentável situação onde convivemos com índices de partos cirúrgicos de terceiro mundo, que nos orgulhamos de não mais pertencermos. Sabemos que, particularmente em alguns estados da nação, como o Rio Grande do Sul, alguns indicadores de saúde, como mortalidade infantil, perinatal e materna têm melhorado nos últimos anos, apesar de ainda insatisfatórios. Mas também sabemos que estes índices não reduzem mais devido à prematuridade e alta morbidade e mortalidade perinatais, que sabidamente baixam um pouco ao se diminuir as taxas de cesariana. O segundo importante aspecto é o fato que esses índices crescentes de cesariana se mantém há décadas em nosso país, gerando algumas consequências, que podemos chamar de barreiras ao nosso objetivo. A primeira consequência é a marca da cesariana em nossa cultura. Ao contrário de muitos países, onde o médico precisa argumentar e fundamentar muito bem sua indicação de cesariana para a família, em nosso país, diante das primeiras contrações dolorosas ou mesmo após um palpite leigo de que o “bebê é grande”, segue-se a solicitação da gestante e familiares pela cesariana. A segunda grave consequência é o grande número de indicações corretas de cesariana pelo fato da paciente ter uma ou duas (ou até mais) cesarianas prévias, fato decorrente exatamente das altas taxas deste tipo de parto. O terceiro aspecto a ser analisado é o alto custo do parto para o hospital e também para o médico. É fácil de entender que a conta hospitalar é muito maior em um procedimento que dure 12-18 horas, como no caso do trabalho de parto e parto, em relação a outro que envolva staff, horas de sala, uso de material por uma a três horas, como na cesariana, inclusive com relativa redução do espaço físico nos Centros Obstétricos para atendimento a gestantes em trabalho de parto. Isso deve ser urgentemente corrigido.

A determinação da ANS,que em última análise, incentiva os planos de saúde a não pagarem as cesarianas, soa como medida de controle e é oposta à educação e planejamento. Esta repactuação social, que envolve a via de parto, deve reunir os diversos atores para dialogarem, reavaliarem seus custos operacionais e se unirem para reeducar a população e os próprios profissionais. As entidades médicas devem necessariamente participar desse processo, juntamente com gestores da saúde e hospitais.

* Jorge Telles é médico Gineco-Obstetra com Área de Atuação em US em Gineco-Obstetrícia e Medicina Fetal; Especialista em Ultra-Sonografia Geral pelo CBR/AMB; Especialista em Educação a Distância (EAD) e mestrando em Pediatria pela UFRGS. Na AMRIGS, é diretor de Comunicação.




 
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